quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Mulheres: De Quebra-Galho para Quebra-Tudo


Adolescência, fase das mudanças, descobertas, desejos, alegrias e decepções. Momento em que os sentimentos acontecem como um vulcão em erupção e os hormônios ganham vida e falam por si mesmo. Sabe aquela época do colégio, em que os grupinhos são divididos na hora do “recreio” e designados como a turma dos meninos e a turma das meninas, também conhecidos como clube do Bolinha e clube da LuluZinha?

Como qualquer adolescente eu passei por tudo isso e confesso que apesar da diferença entre os sexos que vêm lá de trás, da infância, eu sinto saudades.

Acontece que não tem nada mais chato do que ficar separado do sexo oposto, isso vai contra uma das principais leis da física onde os opostos se atraem, é nessa hora que entra a questão dos hormônios falando por si mesmo. Desde então eu tentava me enturmar com os meninos, na luta para romper de vez a barreira construída no passado por uma sociedade preconceituosa. Minhas amigas e eu nos aproximávamos cada vez mais deles, a fim de conhecer, conversar e, claro, paquerar, eu sempre gostei de fazer isso, e confesso que ainda gosto!

Com o tempo as diferenças foram desaparecendo, o grupo passava a ser um só e já não mais existiam diferenças entre homens, mulheres e suas capacidades, ao contrário, quando não estávamos todos juntos nos intervalos sentíamos falta, um vazio, se bem que nem tudo eram flores não, sempre existia um moleque “bobão” para fazer a piadinha infame do momento e expondo a sua verdadeira idade mental, aliás, piadinhas infames são o que os homens sabem fazer de melhor com as mulheres, principalmente se forem loiras, e se forem mulheres loiras e responsáveis por fora em algum desses “bobões” então, agüenta a dor de cotovelo!

Um pouco mais tarde entrei para a faculdade e passei a morar com duas amigas em uma república. Foi lá que conheci um rapaz especial, não posso negar ele era lindo, inteligente e gentil. Minha avó foi a primeira a me incentivar a ir fundo na paquera afinal, a sua neta não poderia perder aquele “broto”.

Então, diante de uma campanha feita da mais pura pressão psicológica, especialmente para tentar futuramente casar a moça de família com o “broto bom partido” da universidade, fui afetada sem perceber e comecei a aprender receitas, a costurar, lavar e a fazer coisas de dona de casa mesmo, eu era praticamente um livro ambulante da Sebastiana Quebra - Galho. Que loucura! Loucura porque eu estava hipnotizada pelas crendices da minha avó e alienada pela mais medíocre inconsciência, acreditando veementemente que a mulher nascera para servir o homem, uma perfeita alusão ao conto da carochinha.

Apesar de muita lenda na relação entre homens e mulheres, existem duas verdades, a primeira é que aquele relacionamento não durou nem cinco encontros e a outra é que ainda não encontrei algum homem que merecesse a submissão de uma mulher ou a sua total devoção.

Algumas mães ainda criam suas filhas à sua imagem e semelhança e ensinam o que acreditam ser o valor mais importante em uma família, o respeito. Respeito ao pai, aos irmãos, aos maridos, aos homens, homens e homens, sempre os homens. O que essas mães não sabem é que esse respeito não é mais do que o silêncio da humilhação gritando, do que a voz da subordinação calando e não deixa de ser também a resposta das incertezas que não explica nada.

Vai ver que é por isso tudo que a família vem sendo reconhecida como a instituição falida, falsa, carente e desamparada, por causa da ideologia antiga e machista que, vergonhosamente, em pleno século XXI, é passada por músicas, escolas, igrejas e novelas. No entanto, enquanto não existir uma mudança de paradigma será totalmentente paradoxal acreditar que a mulher, dona de casa, é feliz por ser quem é, por ser a mulher que em sonhos quebra tudo, mas que na vida real apenas quebra galho.



Por Evelyn Jardim

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